Minha nave faço eu

Parecia uma pergunta como qualquer outra, mas percebi em tempo: não era. Meu filho tinha ganhado de presente de aniversário uma caixinha nova de Lego, cheia de pecinhas minúsculas, feitas para montar uma nave espacial, no estilo Star Wars. E numa manhã qualquer, estava doido pra estrear o brinquedo
- Mãe, abre pra mim?
- Agora não, amor. 
- Por quê?
- Porque tem pecinhas muito pequenas e você precisa da ajuda de um adulto. Vamos esperar o papai chegar. 
- Por favor, mãe!! 
- Não, o papai precisa montar com você...
- Por que precisa ser o papai e não pode ser você?

Eu tinha na ponta da língua a resposta mais óbvia, aquela que fui treinada uma vida inteira para dar, que seria alguma variação de "porque é o papai que sabe fazer essas coisas", mas, ainda bem, fiquei de boca fechada. Mudei de rumo. E decidi que eu não vou passar adiante a ideia de que existem certas atividades e/ou habilidades que competem aos homens, enquanto tantas outras ficam “naturalmente” a cargo das mulheres. Insistir que ele esperasse o pai seria o mesmo que repetir, nas entrelinhas, o que ouvi por vezes e vezes: "olha, meu querido, montar, juntar peças, usar o raciocínio lógico, é coisa de homem. Quer que eu te prepare um lanchinho?". 

E me pus a montar minha primeira nave, linda por sinal. Enquanto eu ia juntando as peças, fazendo a alegria do menino, fiquei, naturalmente, pensando nas razões pelas quais eu ainda não tinha me dedicado a um projeto como aquele. Não me foi dada oportunidade. Da mesma maneira que essas ideias foram sutilmente incutidas na minha cabeça, também foram colocadas na cabeça da minha mãe, do meu pai, das minhas tias e tios, e das professoras (todas mulheres!) que eu tive na infância. A gente não tem culpa, reproduz o que ouve. 

Mas o que difere a nossa geração da de 20 ou 30 anos atrás no que diz respeito à educação de gênero é o debate, o conhecimento. Informação gera responsabilidade e, nos últimos anos, muitas luzes foram lançadas sobre esse tema. Temos, portanto, que quebrar o fluxo. As pecinhas de Lego são um bom elemento ilustrativo, mas estamos falando de muito mais do que isso. Meus filhos não crescerão achando que a eles cabe pensar, e às mulheres sentir, porque isso é simplista, é limitador, é castrador. Isso dói. 

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