Doeu, mãe, mas já passou
/Lukáš Rychvalský/StockSnapio
Estava indo tudo bem na nossa grande missão de trocar de escola - e de ritmo de vida - quando, numa sexta-feira, já chegando março, o menino fechou a cara. O que foi? Ele não soube dizer. Amuou, baixou a sobrancelha e caiu em prantos quando chegou a hora de escolher o brinquedo pra levar pra aula. As regras são outras, mas isso segue como antes: sexta pode levar um brinquedo. Ele, de animado e cheio de expectativa com a escola nova, ficou engasgado, cabisbaixo, e como não quis explicar, esperei. Pouco tempo depois, ele me chamou, segurou minhas pernas e disse: "mãe, acho que já sei o que tá doendo". E o que é? "Lá na escola nova eu tenho muito pouco tempo pra brincar."
O ensino fundamental nos deu uma rasteira. Um sacode. Doeu também lá na boca do meu estômago, e a minha primeira reação foi morrer de dó, checar o horário, ver se é isso mesmo, quem sabe reclamar, saber como é nas outras escolas, proteger, proteger, proteger. Eu fiz o que pude ali na hora, expliquei que mudar dói mesmo, e meio sem certeza, sugeri que a gente focasse no monte de coisas boas que a nova escola estava trazendo. Novos amigos, muitos esportes, judô até, um pátio enorme, aquela biblioteca que ele amou, livros "muito maneiros", etc., etc. Ele secou as lágrimas e foi encerrar a semana, sem brinquedo, "porque assim eu nem quero". Ok. Como quiser.
A dor dele, eu entendi depois, vinha da falta do tempo livre, sem direcionamento, sem interferência. Até então, ele escolhia o que fazer no começo, depois no meio, depois no fim da aula. Agora tem hora, tem sino, tem regra, tem carteira, tem tempo marcado. Os dias se seguiram e eu, que estava tão segura da decisão que tomamos, fiquei pensando se era assim em todo lugar, se não tinha jeito mesmo, se eu me deixei enganar quando achei que tinha escolhido uma escola relativamente light no meio do hard que é o nosso modelo de ensino tradicional. E enquanto eu fui fazendo as minhas pesquisas, conversando com os amigos, profissionais de educação, gente que eu confio, gente que ama a infância como eu amo, vi que ele foi digerindo. O tempo a nosso favor… Eu cheguei a dizer mais uma ou duas vezes que ele encontraria formas diferentes de brincar, que as regras novas tornaram a mudança meio brusca, mas que a escola traria outros tipo de brincadeira e…
E aí um dia ele chegou contando que foi na brinquedoteca. Hum… E que lá tem uma arara cheia de fantasias. Hum… Depois contou do joguinho das letras em cima da centopéia do pátio. No recreio? "Não, mãe, na aula ué". Huuuum… E no outro dia peguei um trânsito daqueles, cheguei tensa, subi correndo o escadão, repetindo mentalmente “ele vai sentir a minha falta, vai sofrer…”, suada, já passando da hora de terminar o futebol e ouvi: "ah, mãe, calma! Peraí que a gente tá brincando de bater uma bolinha… Senta aí, ó!" Sentei. Alguém me dá um copo d’água?