Dia 16/52

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(Dia 16) Eu ainda estava na cama, curtindo a sensação de estar de volta em casa, quando ouvi os passos do menino. Foi ao banheiro, nota-se que fez xixi, escovou os dentes, depois voltou pro quarto, abriu o blackout da janela, e empurrou a porta do armário. Quando parei no alisar da porta, já tinha separado uma camisa, e comparava de longe as cores das bermudas, pra encontrar uma que combinasse. Quando julgou que tinha achado, me deu bom dia e disse que estava se adiantando porque "o papai sempre diz que a primeira coisa é xixi, escovar os dentes e trocar de roupa, e eu não quero perder tempo". Estava pronto pra tomar café, e o que ele queria depois disso, por menos poético que seja, é jogar videogame. As sementinhas da culpa fazem cosquinha na minha barriga sempre que ele diz isso, mas cresceriam com menos vigor se não fosse o pequetito. 

Não que eu pratique o ideal da vida sem tela - vou tentando me equilibrar entre os riscos e os prazeres da tecnologia - mas a questão é que o pequeno adquiriu muito precocemente o direito ao videogame, como consequência do fato de ter um irmão mais velho, e o problema não está na habilidade de desenvolver o jogo, porque isso ele tem de sobra, mas na dificuldade de lidar com as emoções que aquilo provoca. Quando é hora de jogo, e isso só acontece nos fins de semana, ele pula, grita, chora, gargalha, sua as têmporas como se tivesse corrido uma maratona, e nunca está satisfeito. Protesta invariavelmente todas as vezes que precisa desligar, haja quanto tempo houver de jogo, e, enquanto ele chora, eu sempre penso que preciso evitar a próxima vez, que preciso "cortar o mal pela raiz". Até que chega "a próxima vez", e ele pula de alegria porque conseguiu desbloquear não sei quem, me pega pela mão pra ver o que o irmão conseguiu fazer, e iniciam um "trabalho de equipe" que rende muitas risadas (antes de ele cair no choro). Hoje estão se sentindo muito potentes, porque ganharam várias vezes a corrida de São Francisco, e amanhã... Amanhã não é dia de jogo…