Dia 7/52
/(Dia 7) A alegria deles é quase sempre barulhenta... alta, aguda, entusiasmada, potente! Bonito de dizer, mas difícil de lidar, porque a minha vontade é quase sempre de pedir pra baixar o volume, embora eu saiba que, às vezes, isso é pedir demais. Férias em casa, fizeram um "clubinho" - que consiste simplesmente em chamar de clubinho um canto da sala, velho conhecido, dando ao lugar uma aura totalmente nova - e ali promoveram um campeonato, não sei exatamente de quê. Quem ganhava e quem perdia eram sempre eles mesmos, ou os bonecos que eles representavam, então havia sempre euforia, sempre muito pra comemorar. Estávamos sozinhos em casa, e sem a pressão social, sem o perigo de alguém reclamar e eu ficar achando que a pessoa tinha razão por reclamar, eu pude observar aquele entusiasmo em seu estado puro. Felizes porque o peão ficou rodando um tempão, felizes de corpo inteiro, dos pés inquietos ao cabelo que balança a cada pulo..
Meu modelo de alegria é outro - eu não gosto de barulho -, o que é natural, depois de tantos anos. Sim, é claro que é preciso pensar nos outros, é claro que pra tudo tem limite, mas entre baixar o volume e distanciar a emoção tem uma diferença importante, e eu não sei se a gente cuida disso. Há muito tempo, ganhei de uma vizinha uma lição surpresa, que eu guardo até hoje. Meu menino estava andando há pouco, e corria pela casa, gostava de tocar um tamborzinho de brinquedo, e muitas vezes cantava enquanto tocava. No elevador, me desculpei pelo barulho, disse "sabe como é criança, nem sempre ele me escuta", e ela, bem mais velha que eu, respondeu "minha filha, esse barulho é vida! Não vamos tirar isso dele!" Repito a frase dela pra mim mesma algumas vezes, na tentativa de frear essa minha tendência de pedir pra pular menos, pra ficar calmo, ficar quieto. Pode ser que eu esteja pedindo, na verdade, pra deixar de agir de corpo e alma, pra sentir, assim, só um pouquinho da emoção, só mais ou menos, mantendo tudo sob controle, tudo um pouco mais longe do que pode ser.