Dia 31/52

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(Dia 31) Entramos no carro com o entusiasmo de costume, e antes que eu desse a partida o pequetito berrou, berrou alto, mais alto ainda, e chorou de um jeito que não faz todo dia. Descobri alguns segundos depois que ele levou uma chinelada na cara, vinda dos pés do irmão, que estava testando pra ver onde ia parar o chinelo se ele desse um impulso com o pé com toda a força que tem. Daquele jeito que quase todo menino entusiasmado faz. Respirei fundo, cravei as duas mãos no volante, baixei a cabeça e, surpresa, sem repertório, sem convicção, sem saber exatamente a que estratégia recorrer (porque nessa história só muda a forma, mas o problema de falta de cuidado, que aliás é mútuo, se repete), perguntei pra quem pudesse me ouvir: "e agora? O que será que eu devo fazer?" O pequetito não respondeu. O menino, já muitíssimo arrependido e, pelo tom de voz, com medo da resposta, tomou a frente e disse, olhando pra testa rosa do irmão: "pode falar… O que você quer que a mamãe faça comigo?" O pequetito respirou fundíssimo pra buscar algum fôlego, esfregou os olhos e disse: "nada". Depois, chorou mais. 

Não sei se chorou ainda de dor, de raiva, de dúvida, se chorou porque ama o menino que lhe enfiou um chinelo na cara, ou porque não sabe bem o que fazer com todos esses sentimentos misturados... Não sei se já percebeu que a vida é cheia destes sentimentos dúbios e desafiadores, que a gente às vezes se chateia, se machuca, por causa dos erros de quem está bem pertinho… O fato é que foi colocando tudo pra fora. Quando chegamos no nosso destino, depois que estacionei o carro, o menino desceu do banco e foi lá se desculpar de novo, beijar o pequetito, fazer carinho no rosto dele, e agradeceu baixinho a gentileza. Eu ouvi a resposta, que saiu fraquinha, mas muito clara: "tudo bem, a gente é irmão"