Três anos, e vai ser pra sempre
/Mi Pham/Unsplash
Ele estava sozinho no banheiro, pezinhos descalços balançando na privada, e eu esperava a minha hora de entrar em cena, quando ele disse: “mãe, quando eu tiver 3 anos, eu não vou mais precisar de você”. Disse a frase completa, com ponto no final, sem vírgula, sem reticências, sem dúvida. Eu agachei, sorri e cutuquei. “Não vai precisar de mim pra quê?” “Pra nada!”, ele respondeu de pronto, com o sorriso mais doce, levado e inocente que se pode ter às vésperas de se completar três anos.
Se a gente for avaliar calmamente, existe mesmo um abismo entre o tanto que ele precisava de mim e quanto precisa agora - perto de nada, comparado àquele pequetito que eu vi pela primeira vez em outubro de 2014. Anda, come, esfrega o corpinho no banho, brinca e, principalmente, explica o que foi, o que se passa, o que ele sente, ainda que a explicação ainda saia meio confusa. Eu, normal que sou, até fantasio por dois ou três segundos que ele não precise mesmo de mim, pra nada, nem pra descascar uma laranja, o que me daria um descanso que eu não experimento há anos, mas a minha fantasia desaparece ao primeiro chamado, num estalar de dedos. Ele precisa, e lá estou eu.
O que ele talvez não saiba, o que talvez leve décadas para entender, é o quanto eu preciso dele. Não precisava, eu acho, até o dia que ele chegou aqui (ou não sabia que precisava, talvez), mas desde então preciso dos olhos dele pra enxergar o que está em volta, da alegria dele pra curtir cada pequeno feito do meu dia (o pão quentinho, o kiwi verde vivo, o tênis que secou e já dá pra usar de novo, o bolo que saiu da forma sem quebrar, e etc…), da mão firme e quentinha dele pra me puxar e me fazer pensar pra onde é que eu estou indo, e o que é que estamos construindo aqui em casa. Preciso até da chatice dele (ah, sim, tem hora que é danado...) pra conhecer meus limites, exercitar minha paciência, ir me transformando numa versão melhor do que o que eu era...
Pra minha sorte, ele e o irmão ainda vão precisar de mim pra questões práticas da vida por muito tempo (quando é que se aprende a abrir uma lata de atum?), mas eu aposto mesmo é em outras trocas que, de repente, em algum momento entre a adolescência e a idade adulta, hão de travestir a necessidade de vontade, mantendo até o fim da vida o calor desse abraço que eles me dão todos os dias de manhã. Deve ser por isso, por causa desse calor, que ainda preciso contar pra minha mãe quase tudo o que se passa na minha vida, e olha que já se foram bem mais que 3 anos…