Disso eu tenho certeza
/Já brincamos juntos, já nos abraçamos de todas as formas, já choramos juntos, e um dia desses gargalhamos juntos, e gargalhamos muito. Não era a primeira vez que nos divertíamos assim, claro, mas era a primeira vez que eu ria verdadeiramente de uma piada dele, uma jogadinha muito inteligente que ele fez em referência a um dos filmes do momento, e eu não ri porque era fofo, porque o amo, e etc., ri porque ele me pegou. Me pegou de igual pra igual. Juntou um gesto meu com uma fala do irmão, com o clima da casa, com a frase que tinha ouvido no filme, e arrematou tudo rindo de mim, rindo de nós, como fazem as pessoas inteligentes, e não estou falando da inteligência dos livros de matemática…
Poucos dias depois eu ouvi, vindo da sala, um mini debate entre pai e filho, pautado no jogão de quarta à noite. “Falta! Foi falta!”, ele disse cheio de certeza, coisa que se não fosse fofa seria desproporcional para seus cinco anos, quase seis. Enquanto terminava de comer meu pão fiquei pensando em quantas vezes ele ainda vai emitir suas opiniões sobre o futebol, o basquete, a escola, a vida que a gente leva, e o quanto ele vai, claramente, ganhando propriedade sobre sua própria vida, vai se deslocando lentamente do que a gente pensa, vai encontrando brechas pra pensar sozinho, pra construir o que é dele, e só dele.
Quando ele tinha dois ou três anos, como têm o pequetito hoje, eu ficava tocada com o tamanho da confiança dele em mim, em nós. Se nós disséssemos que azul era verde, ele acreditaria, e acreditaria sorrindo. Se eu dissesse que, sei lá, precisa ir de uniforme pra escola, ele tomava aquilo como verdade, era daquele jeito que era o mundo. Nos últimos meses, anos talvez, foi olhando pros lados, colocando a cabeça pra fora da janela, e foi sentindo aquele vento cheio de referências externas. Está só começando. E se o primeiro efeito é duro de encarar, porque questionamento nem sempre vem de forma delicada e confortável, o fim das contas é lindo de se ver: vai pensar, meu filho! Hora de ir juntando os pontos, de ir descobrindo como as coisas são pra você e, veja só que sorte: Papai Noel existe pelo tempo que você quiser.