Agora ele calça 30

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Nasceu com 46 centímetros, mas passou um tempinho e, agora, ele calça 30. Já pareceu uma eternidade, ali naquela hora da cólica, da noite sem dormir, da manha inexplicável diante de um prato de comida, mas a eternidade escapuliu pelos meus dedos e agora parece que passou num piscar de olhos. Acho que dormi com uma gaveta de tênis tamanho 26 e pulamos pro 30, assim, na manhã seguinte. Existem alguns desafios financeiros envolvidos - porque eu andei comprando uns tênis novos que já não têm utilidade -, mas o que pesa mais é olhar aquele pezão de moleque, sabe? Minha bisnaguinha se transformou numa chulapa cheia de ossos. Onde é que vamos parar?

Faltam só mais cinco ou seis números pra poder roubar o meu chinelo, mas outras coisas já vão se transformando antes disso. Outro dia me disse pela primeira vez: “num é isso não, mãe”, e não era um protesto birrento, não era uma disputa de voz, era um debate razoável sobre como desliga o video game. “Deixa eu te mostrar, ó. Viu?” Agora anda orgulhoso quando me mostra uma novidade, quando me ajuda numa coisa que eu não sabia, e somou aos intermináveis “por quê?” (como eram doces esses porquês!) uma extensa lista de perguntas curiosas, em busca de mais e mais informação… "Quem é esse, pai? Em que time ele jogava? A vida inteira? E onde ficava esse outro time? Eles foram campeões?" E se a gente se distrai e interrompe a conversa, ele puxa de volta: "vai, fala, continua falando!"

Nas últimas semanas, se tornou meu eficiente parceiro na hora de manter a harmonia do lar (um viva para a disciplina positiva!) e me cumprimenta ao final de cada dia de paz. "Conseguimos, mãe!", ele sorri, se referindo ao nosso trato de ajuda mútua para manter a calma e apoiar o pequetito também - que, vamos dizer assim, tem tido mais dificuldades… Numa manhã destas, me viu resmungando na área, irritada, e quis saber o que foi. "A chuva molhou tudo, filho! Eu lavei os tênis de vocês, ontem levantei cedo e lavei, estavam secos já, mas eu distraí e a chuva molhou tudo de novo. E aí, num sei com qual..." "Tudo bem, mãe" ele me interrompeu numa cena que, se alguém me contasse, eu duvidaria. Colocou a mão - uma mãozinha de tamanho médio - sobre a minha e disse: "isso não é problema, está tudo bem."

Ainda tenho dificuldades para imaginar o tênis 38, 40… 42? Fico imaginando aquele braço comprido em volta do meu pescoço, torcendo muito pra que ele queira repousar ali por mais um tempo e pra que não pare de me fazer perguntas - e que responda às minhas também, por favor. Parece que falta muito, mas não vai demorar, e é melhor eu não perder o foco. Outras eternidades virão nesse ínterim (vamos ler o livro todo? vamos arrumar esse quarto? vamos pra cama agora? vamos parar de provocar o seu irmão?), mas quem diria que, antes que eu pudesse recuperar o fôlego, ele sairia por aí calçando 30, não é? Parece que foi ontem que…

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