E aí, mãe, já fez o dever?

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Nem bem as crianças tomaram seus lugares nas grandiosas carteiras do ensino fundamental, e as mães debatem ansiosas ("Hey there, I'm using Whatsapp") o que é que precisa fazer. Tem dever? Só esse mesmo? E esse papel que tá na mochila? É pra cortar? É pra colar? É pra colocar num saco? O fulano disse que é pra cortar tudo… O sicrano disse que é pra cortar só a parte colorida… E o livro? É pra ler? É pra levar de volta? Qual página que é pra fazer? E esse papel? É pra assinar? Só falta perguntar: caneta azul ou preta? E seguimos nós, quase desavisadamente, na nossa determinação de colocar tudo dentro de uma caixinha. Tudo como se espera que seja.

A escola tem regras, eu sei. E elas precisam ser seguidas, é verdade. E daqui a pouco tem prova, claro. Mas a geração que tanto questiona a escola, que tanto quer o melhor pro seu filho, talvez esteja esquecendo de dirigir a pergunta a quem interessa, não é? E aí, filho? E aí, filha? O que vamos fazer com esse papel aqui? Talvez ele saiba. Talvez ele não saiba, mas pode ser que isso, inclusive, o "não saber", faça parte do processo, da construção que se busca na escola. Pode ser que o fato de a criança, depois de perceber que não entendeu direito, ir procurar saber o que se espera então daquela atividade faça parte do aprendizado. E pode ser, ainda, que não haja uma única alternativa certa, pode ser que tanto faça, que as variações de entendimento sejam bem-vindas. E pode ser que ali, naquele contexto, errar seja uma grande oportunidade.

Uma amiga minha, mãe de adolescente, já "vacinada" contra essas ansiedades que atingem quase todo mundo, me disse carinhosamente: "essas famílias estão passando por cima dos seus filhos". Estão, eu pensei. Estamos. E por quê? Dentre outras razões, porque nos falta confiança nos nossos filhos e no processo. A gente sabe que a vida vai exigir, a gente sabe que essa mesma escola, por mais acolhedora que seja, vai exigir num futuro próximo rendimento, concentração, acertos e mais acertos e, por causa disso, por medo, ao invés de darmos a eles as ferramentas pra se preparar, a gente sai atropelando tudo. A gente derruba a construção da autonomia, a gente mata o processo.

Uma outra amiga, mãe de dois como eu, vive me contando dos dilemas do grupo dela (o amado grupo de Whatsapp). Existe, ela me disse, um forte movimento, de tempo em tempo, porque "hoje tem dever demais, não tô dando conta", ou porque "madruguei pra montar aquela apresentação de ciências", ou ainda porque "as provas do Joãozinho estão me deixando louca". Ok, não quero bancar a inocente, sei que o nível de exigência de algumas escolas pode dar trabalho, de fato, pra família toda, e no fim das contas existem escolas e escolas, mas será que se a gente perguntar pra eles, desde o início, como é que vamos fazer com aquelas atividades todas, não tem mais chance de dar certo? Será que não é assim que eles vão criando ferramentas pra lidar com isso tudo com mais leveza? Mas a gente prefere interferir logo de cara, consultar uma "instância superior" (opa! o grupo de mães?) e entregar a eles uma resposta ali, prontinha, bem verticalizada: "é assim que tem que fazer."

Quando eu fui escolher a escola nova dos meus meninos, perguntei à coordenadora sobre a questão das avaliações, porque acho errado pressionar uma criança de seis anos. Ela me disse que as atividades com nota existem pra crianças dessa idade, ali no caso daquela escola, porque é uma exigência do MEC, mas que as crianças são preparadas por eles pra lidar numa boa, pra fazer como fazem qualquer outra atividade durante a aula. Por enquanto, é o que parece estar acontecendo. "O maior problema costuma ser os pais. A pressão nasce dentro de casa… A insegurança deles não permite que seja leve", ela me disse. Eu acabei de chegar, mas tô achando que não dá pra duvidar.

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