Dia 18/52
/(Dia 18) Eles brincam de lutinha. Eu já tentei muito evitar, até porque sou filosoficamente contra a ideia de luta (no sentido corporal do termo, que fique claro), mas, ao que parece, trata-se de uma força da natureza contra a qual não posso fazer muito. Vem deles, brota dali, e eles se apertam, se empurram, se abraçam, se tratam por nomes estranhos, gargalham, rolam pelo chão, sobem um em cima do outro, fazem ameaças verbais, gargalham mais ainda e, eventualmente, choram. Quase todo dia é assim, e é bom quando acontece em casa, e não no clube, na praça, na casa dos outros. Quando o menino era mais novo, eu morria de medo da lutinha com os amigos, temia que ele machucasse alguém (muito mais do que saísse machucado), que rolasse aquela polêmica que vem da falta de compreensão do todo. Pedi inúmeras vezes que brincasse de outra forma. Mas quando o pequetito cresceu e se colocou apto ao combate, eles foram ganhando espaço, e eu fico torcendo pra que fique tudo bem.
Existe a questão prática, realmente perigosa, que vai além das minhas convicções e se multiplica diante da escolha de fazer da cama o ringue. A primeira vez que eu vi estrelas - e compreendi que isso é mais do que uma expressão figurativa - foi quando eu caí da cama da minha mãe com o coco no chão, numa pancada seca, rápida, direta. Eu já era grandinha e lutava com minha irmã do meio o que a gente chamava de "luta livre de mulheres" (Deus nos proteja daquilo). Não faz muito tempo, o pequetito arrumou um galo na testa, graúdo e amarelado, porque errou os cálculos do golpe. Hoje, enquanto a gente tentava arrumar a mesa pro nosso primeiro almoço do ano, eles experimentavam a cama da tia, que tem uma graça nova, um charme todo seu. Rolaram, rolaram e rolaram, e quando eu cheguei pra pedir com firmeza, "agora é sério", vamos parar com isso pra gente ir comer, me disse o menino: "já vou, mãe, mas dá só uma lutadinha com a gente… vem ver só o que você está perdendo..."