Dia 19/52
/(Dia 19) Eu nem tinha aberto os olhos ainda, ele já estava lá de pé, parado em frente à minha cama, roupa trocada, hálito fresco, sorriso aberto, disposição pra dar e vender. "Anda, mãe, vamos pra rua" - era a alegria da espera. A gente tinha combinado de véspera que teríamos uma manhã a dois, só eu e o menino, pra rodar pacientemente e comprar a (pequena) lista de material escolar, pra deixar tudo pronto pra quando fevereiro chegar. Só esquecemos de acordar o horário, e ele estava achando que 7h15 era uma boa… Levantei com a urgência que ele pediu, tomamos café devagar e saímos de casa assim que imaginei que teríamos alguma loja aberta. Na rua, entreguei a lista na mão dele e avisei que a gente ia ter que andar, e pra minha surpresa eu tinha comigo um menino totalmente disposto, focado, compreensivo até. "Anota o preço aí, olha quanto custa o caderno, a borracha, esse dicionário de menino grande… E o seu irmão? Será que ele vai gostar desse estojo? Dessa pasta?" Ele tinha opinião pra tudo, opinião cheia de argumento, mas também tinha ouvido pra ouvir, coisa que eu acho que se adquire de maneira mais proeminente depois dos 6 anos. Olhamos, pensamos, escolhemos e compramos, e ele festejava cada lápis, me contava as histórias do ano que passou, e a gente ia imaginando juntos o que está por vir. Dividimos o peso das sacolas, andamos de mãos dadas, comentamos sobre a quantidade de lojas, a confusão do comércio, os cuidados que a gente tem que ter na hora de escolher, o privilégio que é poder escolher, a importância de reaproveitar o que está em dia. Era a alegria do momento que a gente vivia. Cumprimos a nossa missão (oba, numa tacada só!), e quando chegamos em casa, ele viveu tudo de novo, mostrando item por item para o pai, explicando como pretende usar as coisas, que tipo de etiqueta quer colocar, como vai se organizar… E horas depois, de novo, mostrando tudo pro irmão, justificando as escolhas, se entusiasmando quando ele curtia o que via, explicando pra que serve as coisas que ele ainda não conhecida. Era a alegria do depois, e essa dura por muito tempo…