Dia 23/52

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(Dia 23) - A primeira coisa que o menino me disse quando chegamos lá foi: "mãe, vamos fazer um combinado? Essa é a primeira e a última vez que eu venho na feira, tá?". Eu fiz que não entendi, fui ganhando tempo, mas senti que talvez tivesse que abortar a ideia, ou encurtar bastante, e já estava me preparando pra fazer isso, quando fui salva pelo quiabo… Todas as semanas, ou quase, o "moço do mercadinho", um cara simpático e sorridente, entrega na nossa casa nossas compras de hortifruti e, deste jeito, a banana, a melancia, a batatinha gostosa e tudo o mais vai parar na nossa cozinha, ou em cima da nossa mesa, como num passe de mágica. Parece que tudo nasceu assim, organizado, escolhido, lavado e cheiroso - um conforto pra eles e, claro, pra mim. Quando era menorzinho, o menino já me acompanhou a algumas incursões pelas feiras de bairro, mas ele não se lembra. Esta semana, apesar da vontade de usar o telefone de sempre e ditar a lista de pedidos, resolvemos aproveitar o espírito das férias e mostrar "o que acontece entre o sítio e a nossa casa". E escolhemos a maior, mais popular e mais lotada feira que temos por aqui. 

Quando vimos o quiabo, lembrei do gesto da minha mãe quebrando a pontinha dele, das vezes e vezes que fui com ela no sábado de manhã escolher o que a gente ia comer nos próximos dias, e resolvi tentar. Expliquei o que eles teriam que fazer - tentar ouvir o barulhinho, sentir se a pontinha quebrou com vontade ou se só dobrou meio molinha - e eles adoraram! Ganhei dois ajudantes (quase sempre) eficientes. Escolhemos 680 gramas de quiabo, depois conversamos sobre as batatas pequenas, "a gente pode fazer com casca e tudo!", cenouras, tomates, sentimos o peso de uma melancia inteirinha, e precisamos fazer um acordo sobre uvas, porque um quer a verde, outro quer a roxa, mas "esta semana vamos levar uma só". Voltamos pra casa com pastéis de queijo na barriga e a sacola cheia de gostosuras fresquinhas. Depois, no almoço, eu prestei atenção quando a vovó perguntou pro menino se ele gostou do programa e ele disse que sim. Nenhuma palavra sobre "nunca mais ir na feira"...